Expliquem-me qual a função dessas escolas e o seu interesse de existirem, e quanto custam a mais que as públicas, e por quê.
Quando se fala em liberdade de escolha, um valor magnânimo, exerce-se com autonomia e não com a mesada do Estado.
Sermos todos livres por igual é justo; ou recebemos todos essa mesada ou ninguém a recebe. Mas se uns forem mais iguais que outros, não é aceitável.
quinta-feira, janeiro 27, 2011
quinta-feira, agosto 05, 2010
Convite para Casamento

Gostaria de partilhar um convite interessante que recebi há dias de um amigo nepalês de raça sherpa:"My first son Namgyal Zangbu has been engaged in January. My wife and I found him a beautiful Sherpa girl from Solu. The wedding ceremony is on the 30th August and the party will be held on the 3rd of September. I want ...to take this opportunity to invite you to the wedding!"
Gonçalo Velez


quinta-feira, julho 15, 2010
Comentários Anónimos
Acabei de ler um artigo no Público online, seguido de comentários anónimos.
Não é aceitável permitir-se que cidadãos livres escrevam comentários anónimos.
Isso significa desresponsabilizá-los pelas suas atitudes e dar azo a comentários impensados, irresponsáveis, inclusive atentatórios à dignidade dos visados ou do tema.
Sou de opinião que, ou o comentador se identifica como qualquer jornalista o faz, ou deveria ser impedido de o fazer.
Não é aceitável permitir-se que cidadãos livres escrevam comentários anónimos.
Isso significa desresponsabilizá-los pelas suas atitudes e dar azo a comentários impensados, irresponsáveis, inclusive atentatórios à dignidade dos visados ou do tema.
Sou de opinião que, ou o comentador se identifica como qualquer jornalista o faz, ou deveria ser impedido de o fazer.
quarta-feira, junho 23, 2010
Finalmente Alguém impõe Respeito
Macário Correia limita horário do café da autarquia para acabar com "horas de conversa nos bares"
Por despacho interno datado de 27 de Maio, Macário Correia, presidente da Câmara de Faro, deu a ordem aos seus 1030 funcionários: o tempo para o café deve ser regulado com base no "bom senso". "Pretendo um profissionalismo exemplar na resposta aos pedidos. E não posso estar satisfeito com menos", esclarece ao i o autarca.
Macário Correia limitou o funcionamento do café da autarquia ao horário entre as 7 e as 10 horas e entre as 12 e as 14h30, "devido a vários abusos na duração dos intervalos" durante o período laboral que, segundo o presidente da câmara, prejudicavam o desejável funcionamento dos departamentos camarários. "Está em jogo o respeito pelos prazos de entrega de taxas e licenças que aguardam resposta do município. Era uma situação recorrente. Avisei várias vezes as chefias pessoalmente, mas as respostas nunca estiveram à altura dos pedidos e resolvi agir", explica.
(fonte: i)
Por despacho interno datado de 27 de Maio, Macário Correia, presidente da Câmara de Faro, deu a ordem aos seus 1030 funcionários: o tempo para o café deve ser regulado com base no "bom senso". "Pretendo um profissionalismo exemplar na resposta aos pedidos. E não posso estar satisfeito com menos", esclarece ao i o autarca.
Macário Correia limitou o funcionamento do café da autarquia ao horário entre as 7 e as 10 horas e entre as 12 e as 14h30, "devido a vários abusos na duração dos intervalos" durante o período laboral que, segundo o presidente da câmara, prejudicavam o desejável funcionamento dos departamentos camarários. "Está em jogo o respeito pelos prazos de entrega de taxas e licenças que aguardam resposta do município. Era uma situação recorrente. Avisei várias vezes as chefias pessoalmente, mas as respostas nunca estiveram à altura dos pedidos e resolvi agir", explica.
(fonte: i)
domingo, maio 16, 2010
Annapurna

(clica na imagem para ampliar)
Pediram-me hoje para marcar a via Bonington na face sul do Annapurna (8091m), que escalei em 1991.
Confesso que me dá muito prazer rever esta face e recordar o trabalho que nos deu fazê-lo, bem como a alegria de ter atingido o cume.
Os acampamentos foram:
BC - 4200m
ABC - 4700m
C1 - 6200m
C2 - 6800m
C3 - 7300m
A expedição durou de Set 10 a Out 25.
Gonçalo Velez
Annapurna (8091m), Primeiro 8000
Em 1991 tive o privilégio de me tornar no primeiro português a escalar um cume com mais de 8000m, o Annapurna, subindo por uma via de grande categoria: a via Bonington na face sul.
Digitalizei o relato que fiz para a Grande Reportagem, edição de Dez 1991, que podes ler em ficheiro pdf. Clica aqui, depois clica em "download".
Gonçalo Velez
sábado, março 28, 2009
Let's send a Condom to Pope Ratzinger!

As declarações do Papa sobre a inutilidade do preservativo são chocantes e contrariam campanhas de educação há muito comprovadas. Fê-las em Africa que é um continente que está contaminado ao mais nível, há países com 25% da população infectada. Está em curso uma campanha mundial com origem na própria Itália para todos enviarmos um preservativo ao Papa!
Enviem para:
Sr Ratzinger, Prefettura della Casa Pontificia, 00120 Città del Vaticano.
Lê mais aqui:
http://www.facebook.com/home.php#/group.php?gid=58534364452
"asking not to have sex is utopia,
asking to have safe sex is good sense"
Antonio Chiaravalloti
quarta-feira, janeiro 28, 2009
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Stop Worrying and Enjoy Life
Leia um comentário de Polly Toynbee "My Christmas Message: There is probably no God" e sobre o movimento Atheist Campaign
Fonte: British Humanist Associationquinta-feira, dezembro 04, 2008
Combater os Homicídios de Honra no Paquistão
Gostaria de chamar a atenção para o flagelo que constitui a violência conjugal e familiar no Paquistão onde as mulheres são cegadas, desfiguradas com ácido, violadas por grupos de homens que se manterão impunes, espancadas até à morte ou mortas por outro meio, por terem praticado, ou serem suspeitas de terem praticado, "crimes de honra".Estes "crimes de honra" envergonham maridos ou famílias inteiras que, segundo a tradição, têm o dever de "limpar" a honra da família matando a mulher em causa.
O simples facto de uma mulher ter sido violada torna-a, aos olhos desses "familiares" impura e culpada de um crime de infidelidade para com o marido e com a família.
Somente 4% dos culpados são julgados e condenados.
Esta organização, PWA, dirigida por mulheres cheias de coragem e de motivação, algumas vítimas destes horríveis incidentes, esforça-se por:
a) Divulgar e desmascarar todos os crimes que lhe são relatados,
b) Defender por vias legais os direitos das mulheres paquistanesas,
c) Oferecer protecção física e legal e acompanhamento da vítimas até que consigam regressar à sociedade e planear o seu futuro,
d) Gere desde 1999 um albergue em Rawalpindi com capacidade para 30 mulheres.
Leia notícia no Washington Times: Pakistani women victims of 'honor', Acid attacks, kerosene burnings not uncommon as crisis widens, por Katie Falkenberg.
terça-feira, junho 10, 2008
Marty Schmidt regressa do Everest

Hello everyone and greetings from Kathmandu. Today is the 7th of June.
Giannina and I walked out from base camp a few days ago, got stuck in Lukla for a few days of bad weather, pulled together all our equipment and today sorting out this gear for what stays in Nepal and what comes with us to Europe to guide Elbrus in Russia and then Kilimanjaro in Africa before heading home to New Zealand some time in Oct. this year. What I need to talk about now is Tim's amazing ability to conform to the new heights that he experienced while on Everest.
As everyone can read, there were many summits of Everest this year. Just need to point out that Tim and I were climbing in a pure style, just him and I, no sherpas, no support, only back up O2 in place for medical reasons. On the 25th of May we made our attempt without O2 for camp IV, the south col.
Along the way, Tim tried his best to feel the altitude and work with it to get to a height that he never experienced before without any help from O2.
There was only one person who summited Ev
erest this year without O2, unfortunately he passed away on his return to the South Col. Tim and I were doing well without O2, until the yellow band, at around the 7,600 meter mark. I decided to see if Tim's speed work would be helped by a bit of O2.Even with this boost, Tim's pace was not working for us. The goal was to pick up the pace for the south col or turn around for safety reasons. What we did was for the greater good.
Tim's future goals were confirmed with this Everest attempt. We have made plans for Cho Oyu in 2009, Gash 2 in 2010 and back to Everest in 2011. This is the path that will help him reach 8000 meters and above without O2, this takes courage and commitment, our beliefs in simplicity and our morals in climbing the 8000 meter summits with pure ways, no O2 or sherpas, just him and I and the goal of the 8000 meter summits, is possible because we believe in them.
This is the pure mountaineering experiences that we wish for and that is calling us to act upon. What we saw on the south side of Everest this year was a zoo. I could not believe how many sherpas were hired to haul all the clients gear to the higher camps, how much O2 cylinders were put in place by the sherpas in each camp so that the clients did not have to carry this gear, or set up their tents, or do...the normal mountaineering skills that one would expect a climber who summits Everest should be doing.
Ah well, I come from the climbing era of the 7
0, 80 and 90ies, where we did everything ourselves. This is the philosophy that I want my clients to know about and to experience. They come with me to be mountaineers and my climbing partner. I'll keep living this life style because it feels good to me to do so, also my clients feel so much better about their expedition doing it this way. When we turned for BC, everything felt right to do so. Tim pushed gear through the Khumbu Ice Fall 6 times, he was satisfied with his experiences and ready to trek out to Lukla, take the flight to KTM and head home to Dallas to family and friends. He will let them all know what an incredible experience he had on Everest. Giannina and I then decided to try for a one day ascent of Everest.Having everyone clear out of Base camp, leaving just Giannina, Ningma, Sonam and myself, I felt ready to try for the summit in under 24 hours. Mark Batard made a 22 hour ascent many years ago and the record is now around the 12 hour mark by sherpas. But for us white folk to do it under 20 hours would be good enough for me. With just the 4 of us at BC, our food was the best during these 5 days then all the other days combined.
Always make sure that BC food is the best in the world or get another BC organizer right away. Tim, Giannina and I suffered this year with bad food, hence we will organized our own trip to the Himalayas from now on.
So, on the 28th of May, I left BC at 1800 hours. Making it to camp 1 in 2.5 hours, then camp 2 in 45 minutes. Arriving in camp 2 at 2115 hours. I rest and changed clothes for .5 hours, leaving for the Lhutse head wall at 2145. I climbed well to camp 3 in 2 hours arriving at 0015 hours. I pitched my tent, brewed hot drinks, filled my thermos and left for the south col at 0115. I pushed gear to the col back on the 16th and new this area well.

Arriving at the Col at 0345, I took 15 minutes to look for the back up O2 cylinders that Tim and I planned to use for our ascent. We paid extra money for these cylinders to be in placed at the Col. I looked and looked and they were not there.
To me and Tim, this was a crime and we will look more into it in the near future. I promised my wife Giannina that we would have back up O2 in place, but it was not there, heads should roll for this. My next step was to check if i was feeling well enough to keep going for the summit. I left the south col at 0400, arriving at 8,200 meters at 0530, my lungs needed to be looked at.
I contracted a lung infection at some point and i started to heave green and yellow oysters, this was not a good sign to continue. I felt OK, a bit stretched with my air intake, feeling like I needed 3 good breathes for every good one. Yes 8,200 meters is high but I really felt like the infection was robbing me of good breaths. I made the decision to turn, I had the strength to do it right then.
Plus climbing to the summit without the back up O2 would not be good in chase I needed to rescue myself, since no one else was up there on the 29th May.
Happy 55 year anniversary Sir Ed.
All said now, it feels good to be back in KTM, eating well and looking forward to Elbrus and Kilimanjaro. Please write to me at my msigk2@gmail.com and I will be back in touch with all of you.
All the best from Nepal and we'll be in touch soon.
Cheers, Marty and Giannina
PS: O Marty é americano, guia de alta montanha, foi meu companheiro de tenda no Kangchenjunga em 2001 e tornou-se um grande amigo; escalámos o cume junto com o Piotr Pustelnik e o Brian Duthiers (os quatro na foto de topo, Marty de laranja). Recebi hoje esta mensagem do Marty que é um resumo da sua expedição Everest 2008 "guiando" um cliente. O Marty guia cumes de +8000m de um para um, ou de um para dois clientes.
sábado, janeiro 05, 2008
Slides da Expedição ao Manaslu (8163m)
quarta-feira, janeiro 02, 2008
O meu Voo de 300 km no XCeará 2007
por Gonçalo VelezAdoro participar no XCeará e espero conseguir ser um reincidente em cada ano!
Nesta prova voa-se em liberdade, o quanto se quer e para onde se quer, sem regras, sem limitações. Deve-se respeitar um eixo e voar-se em distância o mais longe que consigamos. Esse eixo deve ser preferencialmente a rota do vento que nos impele à sua velocidade.
Este ano os horários de descolagem adiantaram. Tem-se vindo a descobrir que é possível descolar tão cedo quanto as 7h e encontrar ascendente térmica!
Por isso, o pequeno almoço passou para as 6h30 e o primeiro transporte para a descolagem às 7h!
Quase todos os pilotos partiam muito cedo para a descolagem. Procurei isolar-me dessa ânsia pois o que procurava era realizar um bom voo e não julgar que podia estabelecer algum recorde!
Descolar às 8h ou mesmo às 8h30 significava encontrar condições muito fracas, um tecto baixo e enfrentar um risco grande de não se ultrapassarem 20 km.
Subir à rampa demasiado cedo, para descolar horas depois impli
cava um desgaste muito grande pois a espera ao vento é enervante. Assim, subia cerca das 7h30-8h pois não fazia tenção de descolar antes das 9h.Não sei por quê, achei as descolagens este ano mais fáceis. Talvez por ter levado uma asa mais rápida (Tycoon, dhv 2-3) do que a que usei nos anos anteriores em Quixadá (Tattoo, dhv 2). Além da maior velocidade em voo, esta asa infla e sobe com maior rapidez.
Carrego-a com 2 kg acima do limite superior.
São vários factores que melhoram a segurança nestas condições agressivas de Quixadá.
Quixadá, 15.11.07
Descolei às 9h10; a rampa está a 487m de altitude. A essa hora o tecto ainda era baixo, 1200m, e a minha intenção era seguir uma táctica de prudência: enrolar toda a ascendente que encontrasse.
Nestes ventos de 30-40 kmh de média, viajamos na deriva das térmicas que também se deslocam perto dessa velocidade.
Pouco depois de descolar fiquei baixo, km 15, e tive o sentimento de angústia do costume, de me sentir impotente para inverter um destino terrível, mas não desisti, claro. Esta era a zona da "marreca" geral.
Como já estava com algum treino naquelas condições, era o meu 6º voo em Quixadá este ano, fiz uma deriva na diagonal meio a contravento e, por sorte, entre dois montes pequenos que, provavelmente faziam acelerar o ar, soltou-se a térmica!
Consegui subir aos 1500m percorrendo vários quilómetros que me levaram para a planície de Madalena, deixando para trás os montes que envolvem Quixadá.
São os primeiros 60 km os mais críticos. A maioria dos pilotos aterra antes de Madalena por que o tecto ainda é baixo, as térmicas não são muito fortes e o relevo é um pouco incompreensível. No plano a oeste de Quixadá, voa-se frequentemente no “azul”.
No entanto, neste dia o céu estava bem populado de cúmulos.
Depois desta térmica fiz uma boa transição mas os cúmulos que tinha visado tinham esgotado a energia. Naquela zona há vários lagos e lembrei-me de o Diogo dizer que os lagos libertam sempre térmica.
Sobrevoei um lago pequeno onde tinha aterrado há dias, pensando que seria muito azar voltar a aterrar ali.
Dirigi-me para sotavento do maior lago, onde já tinha subido noutras ocasiões, e sondei o espaço, nada. Estranho.
Vou perdendo altitude e desaperto a abertura da selette pois quero estar mais concentrado no voo. Deixo-me ir para sotavento sentindo ansiedade mas acreditando que não ficaria naquele local.
De repente, sinto-a! Formava um cúmulo, e interpretei que a térmica viajaria deitada perto do chão por cerca de 1 km e depois levantava.
Uff que alívio!
Os momentos mais memoráveis do voo de distância são estas recuperações inesperadas, sobretudo quando já se olha em redor para ver quais são as possibilidades de aterragem!
Este ano voei mais contido e mais ponderado, e apliquei pela primeira vez com sucesso a técnica de sondar o espaço.

Em voos anteriores o meu hábito quando perdia a térmica, era virar costas ao vento e “deixar-me ir que algo haveria de aparecer”.
Errado. É preferível redescobrir algo que existe (ou já existiu) do que partir para a incerteza. Neste caso, socorria-me dos instrumentos e do “esperto na cabeça” para tentar perceber que podia já estar a voar a sotavento da térmica, ou ao lado.
As térmicas sofriam muito com a deriva do vento e desenvolviam-se muito “deitadas”. Senti que dominava melhor os nervos, que estava um piloto mais maduro, e senti que sofria muito menos com aquela impaciência de “voar sem ver” e o stress que isso provoca.
Voamos num meio transparente, que dá alguns indícios para quem os consiga detectar, mas se estivermos numa fase da nossa progressão em que não sabemos o que fazer, isso é muito enervante! Vamos para o chão sem sabermos porquê, nem o que poderíamos ter feito para o evitar.
Esta térmica levou-me até Madalena, km 60, numa rota a sul por onde nunca tinha passado. Aqui havia uma extensão muito grande de jurema, o mato com espinhos, que me deixou preocupado.
Nesta fase perdi muita altitude pois não conseguia urinar através da minha algália. Já há algum tempo que me esforçava, mas sem resultado. A minha preocupação era: ou mijava ou aterrava, pois o meu limite são as 3h-3h30 de voo.
Decidi que tinha de voar! Tirei a luva, abri a selette, depois as calças, arranquei o tubo, esforcei-me e… “aqui vai disto, ó Evaristo!”
Nem vi o que aconteceu por causa do cockpit à frente, mas penso que mais de metade da urina me molhou as calças e o interior da selette.
Não fez mal, ganhara outro ânimo para voar!
Depois consegui outra térmica que me fez sobrevoar toda a serra de Monsenhor Tabosa e passar à vista dos locais onde já tinha aterrado duas vezes, uma delas dois dias antes. Só que desta vez passava alto e cedo, 15h.
Partilhei esta térmica com um urubu e girávamos observando-nos mutuamente, ambos com o pescoço dobrado para o lado. Respeitámo-nos sempre até ao instante em que decidi dar uma volta no sentido contrário e estraguei a nossa “relação”, levando-o a abandonar a térmica.
Em Tabosa, km 120, subi numa ascendente gerada por uma queimada e a térmica era suave, pouco rentável, mas segura.
Passei a serra de Tabosa pelo norte, por cima da estrada, e consegui nova térmica resultante doutra queimada que me levou aos 2800m.
A estrada no chão era uma longa recta para Nova Russas, e por cima tinha uma bela estrada de cúmulos.
Não sei porquê, este ano evitei entrar na nuvem… Voei bastante de acelerador sob as nuvens pois sugavam bastante, e também por ver ao longe o que pareciam congestus!
Passei o km 127 a pensar que tinha ultrapassado a minha melhor marca realizada este ano a partir de Castelo de Vide.
Foi neste troço, km 140, que sofri dois potentes frontais que me deixaram muito desconfortável, sobretudo por terem sido quase consecutivos. Estava na base do cúmulo e sentia-se uma turbulência muito agressiva e uma ascendente tipo sugadouro, algo preocupante.
Cometi o erro de abandonar a térmica para sotavento e de entrar em fortes descendentes.
A seguir a Nova Russas, km 160, tornei a ver-me a 300m do chão e a avaliar terrenos de aterragens. Mas nova térmica me salvou e levou-me para 2600m.
Adiante acontece algo de curioso: o chão sobe, dando origem a um planalto, e ficamos com um tecto mais estreito! Essa é a impressão que dá, mas o tecto também vai subindo.
Olho em redor e dou-me conta de que não vi uma única asa durante todo o voo! Que se passa? Que é feito “deles”? Como se fala sempre demasiado no rádio, v
oo com ele desligado por isso não tinha qualquer noção sobre quem poderia estar a voar perto aquela hora.A organização pedia que informássemos a nossa posição sempre que aproximávamos uma baliza: número de piloto, altitude e distância da baliza. Enviava essa informação e desligava o rádio.
Esta informação é importante por razões de segurança óbvias, mas também para permitir à organização posicionar veículos de transporte.
Passo Poranga, km 215, bastante alto, consigo atingir 2900m e percorro 26 km em planeio a direito. Em baixo a estrada é uma longa recta de terra com mato para cada lado. Uma zona muito preocupante se tivesse que aterrar, embora a estrada fosse sempre a salvação.
Às 16h30, km 255, consigo subir no que julguei ser a última térmica, que me levou aos 2900m outra vez.
Faço um planeio de uns 20 km numa restituição deliciosa em que a taxa de queda é muito reduzida, e as cores do final de tarde são soberbas.
Concentrei-me a aproveitar ao máximo as modestas linhas de ascendente que fui sentindo. Às vezes desconcentrava-me a apreciar a paisagem e auto-criticava-me!
Cheguei a Pedro II eram 17h e reparo que estou no km 283.
Pergunto-me: e por que não os 300 km, hein?!
Passo a sul da cidade sobre uma colina e vejo adiante um urubu que enrolava térmica. Nem queria acreditar que ainda podia haver uma ascendente aquela hora!
Era fraca mas fez-me subir 700m. O urubu e eu girávamos sincronizados, eu desconfiado, tentava olhar para trás das costas para ver se ele não me traía. Depois subi mais do que ele e desistiu, foi procurar outra companhia.
Sabia que estava próximo o momento de aterrar e fazia contas ao terreno, e sobretudo tentava adivinhar qual era a estrada principal, ou seja, o eixo lógico dos transportes de recolha para não ficar muito distante de um local conveniente.
Do ar tudo parece perto e fácil, mas quando estamos aterrados arrependemo-nos de algumas opções de aterragem que fizemos, sobretudo quando o rádio não alcança alguém!
Contudo, neste momento só olhava para o conta quilómetros: queria passar os 300 km!
Voei por cima de uma estrada e esperei, tentando sempre sentir as melhores linhas de planeio.
Aproximava uma aldeia e vi 288 km.
Lá em baixo jogavam futebol num campo grande. Em redor o terreno era coberto de arvoredo e raras clareiras.
Detectei um campo largo, bom para aterrar, e outro campo mais longe, menos bom, estreito e ladeado de árvores.
Vi 299 km e deixei-me ir… esperei.
Mal vi os 300 km dei meia volta e dirigi-me para esse campo largo.
Uff, consegui.
Eram 17h30. Não tinha comido todo o dia e antes de dobrar a asa comi duas deliciosas maçãs e três mini-bananas que transportava comigo.
O rádio não tinha alcance e o meu telefone não tinha rede! Pedi a um dos nativos para enviar um sms ao Chico com as minhas coordenadas.
Fez-se escuro rapidamente e saí do campo na companhia de aldeãos com uma lanterna acesa na testa.

Deram-me boleia de moto até uma mercearia no centro da aldeia onde comprei cerveja, pão e uma lata de sardinhas, pouco mais havia para comer.
Soube que estava em Mororó, município de Lagoa de São Francisco, estado do Piauí.
Fecharam a mercearia às 20h e deitei-me a dormir no chão com uma bota a servir-me de almofada, o rádio ligado à cabeceira.
O carro da recolha apanhou-me eram 1h30 e cheguei ao hotel em Quixadá às 9h, atrasado para o pequeno almoço e para outro dia de voo!
Aqui está o track do voo que descrevo acima.
Conclusão
Este XCeará resultou numa enorme surpresa para mim pois acabei por voar o triplo do que voei em 2006!
Em 8 dias disponíveis, voei 7, num total de 18.9h.
Excluíndo o voo local de treino no primeiro sábado, voei 17.8h e 587 km de distância.
Isto equivale às médias por voo de 2h58 e de 98 km de distância.
Foi uma excelente semana!
Obrigado aos meus companheiros de viagem e de voo, Paulo Reis, Carlos Brasuka, Gil Navalho e João Brito pela amizade, e aos demais participantes, motoristas das recolhas, meninos de Juatama (os ajudas na descolagem) e pessoal da organização por participarem e organizarem esta prova tão especial.
O meu companheiro Paulo Reis fotografou e filmou:
Slideshow
Filmes:
Viagem para Quixadá e Voozinho
Briefing e Manga de Teste
Dias 1, 2 e 3
Dias 4 e 5
Dia 6 e Entrega de Prémios
Parabéns aos recordistas do Mundo, Marcelo Prieto “Cecéu”, Rafael Saladini “Sardinha” e Frank Brown pelos 461.8 km voados em 14.11.07, a véspera do dia do voo que relato acima.
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quarta-feira, dezembro 12, 2007
Lavar os Dentes em Sama
(clique nas imagens para ampliar)





No início da minha expedição ao Manaslu nos Himalaias do Nepal em final de Agosto 2007, voámos num helicóptero de carga russo de Pokhara para a aldeia de Sama (3600m), a um dia de marcha do acampamento base.
Depois de descarregada a carga e a bagagem que foi transportada por carregadores para uma estalagem na aldeia, atravessei o ribeiro defronte do local de aterragem e segui um carreiro.
Cheguei a um chafariz onde se juntavam um grupo de crianças a lavar os de
ntes!
Tinham sido enviadas pelos professores e estavam muito divertidas cumprindo com essa tarefa.
Adoraram ser fotografados, e depois conduziram-me à escola.
Eram uns quinze, um grupo muito animado, que me levaram à sala onde guardavam as escovas no rés do chão. Os professores, um homem e uma mulher não pareciam achar muita graça à expansividade dos garotos, e mantinham-se contidos, provavelmente devido à presença do estrangeiro.
Cada aluno tinha um prego espetado na parede com o seu nome onde pendurava a escova de dentes.
Percebi que eles residiam na escola pois as famílias morariam a horas de distância a pé.
Foi muito divertido!





No início da minha expedição ao Manaslu nos Himalaias do Nepal em final de Agosto 2007, voámos num helicóptero de carga russo de Pokhara para a aldeia de Sama (3600m), a um dia de marcha do acampamento base.
Depois de descarregada a carga e a bagagem que foi transportada por carregadores para uma estalagem na aldeia, atravessei o ribeiro defronte do local de aterragem e segui um carreiro.
Cheguei a um chafariz onde se juntavam um grupo de crianças a lavar os de
ntes!Tinham sido enviadas pelos professores e estavam muito divertidas cumprindo com essa tarefa.
Adoraram ser fotografados, e depois conduziram-me à escola.
Eram uns quinze, um grupo muito animado, que me levaram à sala onde guardavam as escovas no rés do chão. Os professores, um homem e uma mulher não pareciam achar muita graça à expansividade dos garotos, e mantinham-se contidos, provavelmente devido à presença do estrangeiro.
Cada aluno tinha um prego espetado na parede com o seu nome onde pendurava a escova de dentes.
Percebi que eles residiam na escola pois as famílias morariam a horas de distância a pé.
Foi muito divertido!
segunda-feira, dezembro 10, 2007
quarta-feira, outubro 31, 2007
Carta ao Ministro da Saúde

Venho alertar-vos para a indisciplina tremenda que se faz sentir no sistema de saúde português, tanto público como privado e que se traduz sobretudo na grave falta de pontualidade dos prestadores de serviço!
Os médicos demonstram uma enorme falta de respeito pelos utentes por raramente cumprirem os horários.
Os serviços estão organizados para desperdiçarem uma quantidade enorme de tempo aos utentes. É habitual perder-se uma tarde inteira ou uma manhã para se ter uma consulta. O sistema já encara este desperdício como normalidade.
Em Portugal, a população não tem outra solução senão conformar-se com este estado inaceitável de deficiente organização dos serviços de saúde. Subscrevo um seguro de saúde privado e, no hospital que utilizo (CUF), a falta de disciplina é idêntica, a mentalidade de médicos e de funcionários é quase igual ao do sistema público.
Este hospital nem sequer tem um processo de auscultação da opinião dos utentes. Já quis reclamar e não soube a quem dirigir a minha mensagem. Já o fiz pelo menos uma vez e nunca obtive uma resposta.
O País está a desperdiçar milhões de horas de trabalho com a indisciplina atroz que reina no mundo da saúde em Portugal!
A nossa produtividade poderia ser largamente beneficiada, e o desenvolvimento nacional muito acrescido, caso V Exa conseguisse inverter o estado de coisas que exponho acima.
terça-feira, outubro 30, 2007
Lembrando o Bruno e o RD

Na primavera de 2002 participei numa expedição ao Makalu (8470m).
Nas primeiras duas ascensões escalei com o RD Caughron, americano de Berkeley (Califórnia) com 58 anos de idade, um bem sucedido gestor de sistemas informáticos. Pessoa sociável e divertida, que lia a The New Yorker, e com quem conseguia ter conversas para lá da esfera do montanhismo.
Na nossa segunda ascensão o RD falava-me muito no Makalu La, o colo a 6900m que teríamos de dobrar para montar o C2 (7400m).
No dia em que acordámos no C1 (6500m) para seguirmos para o C2, ele acordou mais cedo do que é normal e falava-me entusiasticamente em irmos dormir ao C2. Como ainda não havia um trilho, nem cordas, nem um reconhecimento desse itinerário, respondi-lhe friamente de que talvez não fosse boa ideia irmos carregados sem sabermos se lá chegaríamos.
Após muita insistência dele, lá carregámos uma tenda, sacos-cama, gás, panelas, fogão, alimentos, etc preparados para acampar no C2.
Nesse dia alguns alpinistas com os seus sherpas subiam ao Makalu La e montavam-se cordas. Nós subíamos lentos.
Por volta das 16h os sherpas e os demais alpinistas ocidentais começaram a descer. Tinham fixo as cargas a amarrações e desciam alegando que as cordas fixas não chegavam ao cimo do corredor.
Continuámos lentos e sentindo algum cansaço, mas com capacidade para continuarmos por mais horas, até que atingimos o extremo da última corda.
O RD mantinha uma enorme teimosia em continuar!
Eu informei-o de que não seguia e que a minha decisão era a de descer para o C1.
Expliquei-lhe que estávamos carregados e cansados, que a neve no corredor a 45º tinha pouca consistência e sem cordas fixas constituía um risco acrescido, que o dia já ia longo e nós escalávamos
lentos e arriscávamo-nos a não atingir o topo do colo antes do caír da noite, que ainda para mais não tínhamos a noção da distância que nos separava do C2 nem das dificuldades que poderíamos enfrentar.O RD concordou com tudo o que lhe expus, mas… decidiu que continuava!
Tentei convencê-lo a descer comigo: “é melhor jogar pelo seguro, amarramos aqui as cargas, descemos agora, e amanhã regressamos para tentarmos subir ao Makalu La”.
Eu estava perante um alpinista experiente que realizava pelo menos a sua quarta expedição a um cume de +8000m. Tinha-lhe explicado as razões do meu abandono e ele percebeu-as. Sabia certamente quais as consequências dos riscos que lhe falei, e nada mais pude acrescentar.
Senti-me vagamente culpabilizado por abandoná-lo, mas sabia que a minha decisão era claramente baseada na prudência, e a dele baseada na obstinação cega e no desvario.
Nada mais pude fazer…
Cheguei ao C1 era noite cerrada.
No dia seguinte às 8h, o italiano Fabriano vem ter comigo à tenda dizendo-me que o RD estava “morto”.
Os dois suíços, os únicos que tinham dormido no C2, tinham descido e passado por ele. Estava sentado n
uma rocha, uns 20m do local onde nos tínhamos separado. Tinha o casaco aberto e as mãos nuas, o saco cama tinha desaparecido, e aparentava estar em coma. Os suíços acharam que não tinham meios de ajudá-lo.Nessa manhã o vento intensificou-se muito. Mesmo assim, o eslovaco Martin ainda tentou subir com medicamentos, mas acabou por desistir por cansaço e pelo estado do tempo que se agravava.
A conclusão que desejo apresentar deste episódio é a de que escalar cumes com mais de 8000m é uma actividade altamente exigente reservada a alpinistas muito experientes, que possuem total autonomia no campo técnico, físico e psicológico.
Esta é a disciplina mais
elevada do alpinismo em todos os aspectos!Se decidem participar neste tipo de actividade arriscam a vida, e fazem-no sobretudo com consciência dos riscos objectivos e subjectivos envolvidos.
Em suma, sabem que podem morrer por via das suas próprias decisões e actos. Cada alpinista é um ente autónomo, que faz parte de uma equipa, é certo, mas que tem iniciativa e vontade próprios.
Como em qualquer actividade onde se quebram barreiras e se ultrapassam as marcas estabelecidas, nos Himalaias não há regras definidas e cada qual conhecendo os seus limites (ou julgando conhecê-los) procura exceder-se através do esforço e da inovação.
É muito difícil contestar à priori a iniciativa de um alpinista. Há feitos excepcionais que resultaram de ideias aparentemente “loucas” e que a maioria à priori condenou.
A única coisa que o João Garcia poderia ter feito junto do Bruno Carvalho no Shishapangma quando se cruzaram perto do cume, num episódio idêntico ao que exponho acima e ocorrido há um ano, seria aconselhá-lo a ter cuidado e a perder o menos tempo possível.
O atraso do Bruno nada de errado poderia denunciar.
E se algo de errado se passava com ele, teria de ser o próprio a saber decidir renunciar.
Se ele atentava um 8000m tinha de estar à altura das exigências da tarefa, em todos os seus aspectos mais críticos.
A e
quipa que ele integrava não era uma equipa enquadrada por um guia como acontece nas expedições comerciais. Mas, mesmo nestas, o guia acompanha para coordenar a equipa e decidir a táctica. Não acompanha para “tomar conta” dos clientes.Já me atrasei em diversas situações, como para tentar recuperar a circulação num polegar ou estar 30 minutos a tentar abrir uma abertura de velcro na traseira das calças para poder obrar a 8400m!
O Bruno tinha de ter a capacidade de decidir se estava capaz de prosseguir, e até onde.
Decidiu prosseguir, e provavelmente decidiu bem, por que se sentiria em boas condições.
Errou na descida do cume e infelizmente pagou com a vida.
Ninguém o poderia ter evitado, só ele.
Gonçalo Velez
PS: Dias depois de escrever o texto acima, encontrei-me com o João que acrescentou dois dados:
a) Acordou com o Bruno, quando se separaram, que este teria como limite de horário as 14h para dar meia volta e descer;
b) Entregou-lhe o telefone de satélite para ele poder comunicar com o acampamento base, e daqui poderiam comunicar por rádio para o João no C3, caso o Bruno precisasse de ajuda.
Nota: É inacreditável existir gente que opina sobre assuntos delicados e sérios, sem nada conhecer do assunto, tanto da matéria, como do contexto em que a acção ocorreu. Revelam ignorância e má fé!
O editorial do último panfleto da Federação de Campismo de Portugal (nº 15, Jul-Ago-Set 2007) é disso um exemplo flagrante e de muita gravidade.
Demonstra uma grande irresponsabilidade no que pretende questionar, não apresentando quaisquer fundamentos objectivos para tal.

domingo, agosto 19, 2007
Manaslu, 8163m

Vou partir em Ago 25 para o Nepal para escalar o Manaslu, 8163m.
Em Kathmandu embarcaremos num helicóptero de transporte russo, em Ago 30, para voarmos para Sama, 3450m, uma aldeia situada um dia de marcha antes do acampamento base. Este voo poupar-nos-á uns 8 dias de caminhada.
O período de escalada decorrerá de Set 4 até Out 8. Teremos de montar e equipar 4 acampamentos de altitude (5900m, 7000m, 7450m).
A adaptação à altitude demorará 3-4 semanas após as quais tentaremos o cume, no final de Setembro.
Conto mandar algumas notícias para o blog que criei, http://manaslu2007.blogspot.com, e espero que os meus companheiros de equipa também o façam. Já lá existe alguma informação, fotos e mapas.
Regresso em Out 12.
segunda-feira, julho 09, 2007
Taxistas Aldrabões
Já é a segunda vez que oiço sobre taxistas que iniciam a viagem e se esquecem de ligar o taxímetro.
No final da viagem pedem um valor extra ao cliente para compensá-los do "esquecimento".
A realidade é que no final do dia entregarão ao patrão os valores registados no taxímetro e levam a diferença no bolso!!
No final da viagem pedem um valor extra ao cliente para compensá-los do "esquecimento".
A realidade é que no final do dia entregarão ao patrão os valores registados no taxímetro e levam a diferença no bolso!!
terça-feira, maio 29, 2007
Viajando com os Tuaregues no Sahara, Líbia
Os qasr, celeiros fortifcados Na estrada de Tripoli para sudoeste, a caminho de Gadamés, passamos por dois celeiros fortificados muito interessantes.
Qasr Al Haj, o maior celeiro da Líbia, data do séc XII, e é um belo exemplo de arquitectura berbere, de planta circular. Servia para conservar e para proteger as reservas de alimentos da população da aldeia contígua. Cada família possuía uma dispensa onde armazenava o azeite, em ânforas, e o cereal em células balizadas por madeiras.
Deambulei pelas ruínas da aldeia em redor onde muitas habitações ainda possuem cobertura.
O qasr tem 114 despensas com portas de madeira de tamareira, quatro pisos, onde se guardavam principalmente azeite em ânforas, trigo e cevada. Deixou de ser usado em 2000.
Na entrada tem uma exposição muito interessante de utensílios antigos utilizados em casa e na cozinha, no trabalho agrícola e na guerra ou na caça.
A gestão do celeiro era realizad
a por um “secretário” que era a única pessoa autorizada a entrar no celeiro e a manusear os víveres. O celeiro de Nalut, mais adiante na estrada, situa-se num alto à beira de um promontório e está circundado pelas ruínas da antiga aldeia.
Esta região foi muito rica na produção de azeite e por isso possui dois lagares no centro da aldeia antiga, um dos quais activo até ao final do séc XX e quase intacto. A aldeia antiga está em ruínas, mas as suas três pequenas mesquitas estão conservadas. A mais antiga, reconstruída no séc XIV, tem curiosas inscrições em alto relevo nas paredes e nos tectos. Uma delas, um pé descalço, adverte os fiéis de que têm de entrar descalços.
O celeiro fortificado tem uma inscrição que indica ter sido reconstruído no séc XIII. Tem uma planta irregular próximo do quadrangular, e o interior das muralhas de adobe e de pedra parece um bairro habitacional onde se circula em vielas muito estreitas subindo e
descendo.Possui 400 despensas, cada uma com reservatórios para cereal e grandes ânforas para azeite. Para subir-se aos celeiros dos níveis superiores estão cravadas no adobe pedaços de rocha protuberantes que servem de degraus. No topo dos edifícios sobressaem cotos de madeira de tamareira onde se pendurava uma roldana e de que se içavam as cargas.
Ghadamés
Junto à fronteira com a Argélia e a Tunísia, situa-se Ghadamés. Foi desde sempre um oásis de importância estratégica na rota das grandes caravanas de dromedários que atravessavam o deserto provindas do Niger e do Mali e que se dirigiam para a costa. Foi durante séculos uma das mais importantes cidades caravaneiras de todo o Sahara aonde chegavam, vindos do sul, escravos, metais preciosos, marfim, sal, tecidos, especiarias, perfumes, etc.
Os romanos e os bizantinos que a dominaram já entendiam a importância da sua situação. A cidade antiga é um assombro de encanto e de surpresa: parece uma cidade subterrânea, mas não é! Estima-se que foi fundada no séc XIII por tribos berberes. Está envolta em muralhas, e as habitações de dois pisos encontram-se amalgamadas umas às outras ao longo de um labirinto de vielas cobertas onde se caminha longamente na penumbra.
O ambiente é enigmático e insólito, e ao mesmo tempo belo por que se evolui ao longo de diversos tons de sombra desde a quase-escuridão à claridade.
A cidade divide-se em dois bairros habitados cada qual por uma tribo, estas dando origem a sete grandes famílias
. Por isso há sete vielas principais e o mesmo número de portões de entrada na cidade, mesquitas, escolas e de pracetas.A arquitectura desta cidade está concebida para se suportar os quase 50ºC no verão: construção em adobe, poços de ventilação, pequenas aberturas para o exterior nos tectos.
Perto de cada mesquita as vielas abrem-se numa pequena praceta, um local de encontro com bancadas largas. Ainda hoje os anciãos vestidos de jelabas e de óculos com vidros espessos aí se sentam esperando pela companhia de alguém conhecido.
A cidade foi mandada evacuar pelo Estado que quis impor a modernidade e construíu outra ao lado. Infelizmente as novas casas não estão adaptadas aos rigores do verão! Todos os antigos moradores mantêm a propriedade das suas casas e muitos estão a restaurá-las visando um futuro benefício no âmbito do turismo pois a cidade está classificada como Património Mundial
pela Unesco. Visitei casas em estado de abandono e apreciei as decorações antigas nas paredes, e subi aos terraços.Todas as habitações têm um terraço pois a luz é recebida por uma abertura na cobertura.
O terraço é um espaço reservado à mulher, é o seu espaço de convívio com a vizinhas pois não pode saír à rua ou ter contacto com homens que não são familiares.
O guia mostrou-me como um homem e uma mulher batem à porta de uma casa de forma diferente para se fazerem anunciar. Se um homem batesse à porta e ela estivesse só, não poderia abri-la.
Também me mostrou as decorações nas portas de famílias que tinham viajado para Meca para cumprir as suas obrigações religiosas: inúmeros pequenos pedaços de pano verdes e vermelhos pregados à porta.
Dentro das muralhas ainda
há espaço para hortas, capoeiras e pequenos currais de cabras protegidos do sol implacável pela sombra de conjuntos de tamareiras. Frente à entrada principal da cidade está uma grande piscina de água transparente que provém de nascente e que é canalizada para todo o burgo por canais subterrâneos.
Junto de cada mesquita passa um canal e existem recintos destinados às abluções antes da reza.
Os lagos Ubari
Surpreendentemente, as estradas na Líbia têm um bom piso e permitem velocidades “elevadas”. Percorremos os cerca de 1000 km de Gadamés a Ubari, passando por Sebha, em perto de 8h.
Os lagos Ubari situam-se no meio do areal imenso e estão envolvidos por grandes dunas. Antigamente eram uns dez, e hoje resistem três. Ao contrário do que se possa imaginar, o deserto interior da Líbia possui reservas subterrâneas de água doce em quan
tidades imensas. São reservas acumuladas ao longo de milhões de anos e cujos lençóis estão a poucos metros da superfície.Não há dúvida de que os oásis na região são muito férteis e verdejantes: observei muitas hortas no meio dos palmeirais e largos campos de trigo.
Os lagos Ubari eram habitados por um povo sedentário que viveu em grande pobreza e subdesenvolvimento por ter escassas fontes de alimento. No lagos pescava uma artémia, um marisco do tamanho de uma pulga de praia, que era a base da sua alimentação.
Há vinte anos, os lagos começaram a conter mais sal do que o suportável e estes habitantes tiveram de ser realojados.
A visão dos lagos no meio das areias é insólita. O mais longo tem cerca de 500m de comprido, e estão marginados de vegetação.
Restam ruínas de habitações, bancadas de secagem dos crustáceos, algum poço tapado de areia, uma mesquita e tufos dispersos de tamarindos e de tamareiras, estas com metade do tronco mergulhado na areia.

O maciço de Maghidet
Para uma caminhada no deserto, procurava uma região pouco frequentada e tranquila. A Líbia ainda não tem muito turismo, mas todos os viajantes utilizam um jeep e vão querer cruzar as dunas, por que é excitante. O incrível é que estes trilhos demoram meses a desaparecer e isso reduz a sensação de isolamento. Um trilho que observo hoje parece ter sido sulcado horas atrás, mas provavelmente foi-o há semanas ou há meses, se não tiver havido grandes vendavais!
Assim, seleccionei o maciço de Maguidet, pouco conhecido entre os operadores de viagens. Situa-se a sul de Ghat sobre a fronteira com a Argélia, no sudoeste do País.
Para realizarmos a caminhada precisávamos de dromedários. Assim trilhámos uma região onde nos tinham dito que
os pastos eram bons e onde permaneciam algumas famílias de nómadas.Na realidade tinha bastante vegetação de giestas e de outros arbustos rasteiros. Mas, os nómadas não se encontravam perto dos animais e isso obrigou-nos a pesquisar vários quilómetros em redor.
Curiosamente, o nosso motorista, o Mansoor, encontrou o seu dromedário fêmea favorito que acariciou longamente com emoção e a quem ofereceu pão duro! Ele tinha confiado os seus animais a uma das famílias, sua parente.
Os primeiros nómadas que descobrimos não estavam disponíveis para nos guiar. Estávamos em Fevereiro e os dromedários tinham crias acabadas de nascer que mal se aguentavam nas patas, e eles não queriam abandoná-las.
Finalmente conhecemos um nómada que se dispôs a acompanhar-nos com dois dromedários, e marcámos en
contro para o dia seguinte à tarde. Ele ainda teria de percorrer várias horas a pé até ao local onde queríamos iniciar a caminhada. O itinerário atravessa zonas rochosas com vales brandos cobertos de areia e de estepe, pequenas dunas com áreas de terra e inúmeros tufos de gramíneas, de giesta e de raros tamarindos raquíticos que resistem solitários.
Notam-se os vestígios da água no centro destes vales pela diferença de coloração e pela vegetação mais densa. Em Janeiro caem chuvas torrenciais que formam verdadeiras torrentes no deserto e isso está marcado nas longas lajes de rocha que foram postas a
descoberto pelas águas.Passámos alguns túmulos de nómadas construídos de pedra solta, únicos vestígios da sua existência milenar nesta região.
Atravessámos uma zona incrível que parecia uma imensa “floresta” de enormes monólitos desmoronados que se elevam acima de uma areia fina de cor laranja, criando a sensação de percorrermos as ruínas de uma cidade perdida!
A paisagem é muito insólita e cativante por que a todo o mo
mento julgamos reconhecer formas de edificações. Ao longe estende-se um mar de elevadas dunas que se tornam alaranjadas no fim do dia.O espectáculo à noite, com a luz da lua, é quase irreal e muito belo.
Dormimos sempre sob as estrelas após um jantar à fogueira. Tínhamos bastante tempo para conversar e os guias touaregues falaram da sua cultura.
Os Touaregues
O chá é uma instituição indissociável do seu quotidiano. Logo no primeiro dia à chegada a Tripoli notei que na preparação do chá se concentravam sobretudo em criar uma espuma farta sobre a bebida. O chá no norte de África é preparado com uma quantidade exagerada de açúcar que, vertido de certa altura, produz espuma à superfície. Toda a sua preparação obedece a um ritual rigoroso, e percebe-se que os gestos são automáticos por terem sido repetidos vezes sem conta.
A abundante espuma é sinal de hospitalidade e de amizade. Um chá servido com pouca espuma é encarado como uma grosseria. O Hassan diz que se lhe servirem um chá com pouca e
spuma verte-o na areia, por que é uma afronta. Ria-se e chamava-lhe “le champagne du désert”.
Os touaregues têm um ditado que diz que “o primeiro chá tem de ser forte como a guerra, o segundo doce como o amor, e o terceiro brando como o espírito”.
Ele contava que, ao contrário da sociedade islâmica, na sociedade touaregue é o homem quem tapa a cara. O homem tem vergonha de a mostrar, e nem aos filhos o faz.
Come virado para o pano da tenda, de costas viradas para os demais, e só à noite poder
á a sua mulher conseguir enxergar a sua fisionomia. Hoje este costume já não se aplica com rigor, mas os mais velhos ainda o cumprem na presença de estranhos.
Perguntei como se reconhecem as pessoas. Diz-me que é através da estatura e das mãos e dos pés! Sem o conjunto da face, os olhos deixam de ser relevantes, além de que muitos usam óculos com armações espessas de massa. Disse-me que conhece um ancião em Al Awinat que até hoje nunca alguém lhe viu a cara!
Nesta sociedade a mulher é relativamente livre e tem capacidade de escolha do seu noivo. Poderá conhecê-lo no poço ou nas pastagens, e tem liberdade para conversar com ele. No entanto, tem de casar virgem se não o noivo anula o casamento, e a família da noiva tem de indemnizar o seu pai dos gastos do casamento e devolver todo o gado que recebeu como presente.
Os touaregues, um povo tradicionalmente nómada, habita o núcleo central do Sahara ao longo das fronteiras comuns dos Niger, Líbia, Mali e Argélia. Formam uma co
munidade com estreitas afinidade e solidariedade que remonta ao tempo em que a organização política era simplesmente tribal. Possuem uma língua e uma escrita comuns, o tamasheq, e têm liberdade para cruzar fronteiras sem restrições tal como viajavam outrora, sempre em busca de melhores pastagens. Outrora, a sociedade touaregue compunha-se de nobres, homens livres, artesãos e escravos.
Os homens livres tinham os seus rebanhos e detinham património onde se contavam os escravos. Os artesãos trabalhavam o metal e a madeira, e as suas mulheres o couro e os tecidos. Esta classe vivia dependente da família de um homem livre, tal como antigamente os servos da gleba na Europa, mas recebia uma remuneração e gozava tempo de lazer, ao invés do escravo.

O pão touaregue é amassado sem fermento, ao contrário do que já provei noutras paragens do norte de África. A sua preparação é insólita: faz-se uma cova na areia que se enche de brasas, depois de a areia estar bastante quente, retiram-se as brasas e coloca-se a massa que se cobre com areia, e recolocam-se as brasas sobre esta areia. Ao fim de vários minutos o pão está pronto e escova-se a areia!
As tâmaras estão sempre presentes pois são o fruto tradicional dos touaregues. Têm muitas calorias e conservam-se longamente.
Ghat
Ghat foi uma antiga cidade-oásis com grande importância para o comércio caravaneiro, e uma das raras urbes onde se estabeleceram e se sedentarizaram famílias de touaregues. Situa-se na fronteira com a Argélia, defronte de Djanet, num cenário admirável com um mar de enormes dunas a sude
ste, ao longe para leste o maciço de Akakus, e mais ao longe para oeste os montes Tassili n’Ajer na Argélia. Foi uma cidade parceira de Ghadamés como entreposto na rota das caravanas. Visitei o mercado ao ar livre onde expõem comerciantes vindos dos vizinhos Niger e Argélia tal como há séculos. No entanto, o tipo de produtos e de bancas não diferem muito dos das nossas feiras de aldeia. Claro que não faltava a banca de cd’s piratas debitando som com grande estrondo.
Fiquei estupefacto com a estatura dos negros desta região, homens e mulheres, altos, espadaúdos e elegantes. “São descendentes de antigos escravos”, explica-me o Hassan com simplicidade.
Os artefactos típicos desta região do Sahara são os tapetes touaregues kilims, jóias em prata a destacar os colares e brincos que incluem âmbar, coral, conchas, e os punhais cerim
oniais, roupa tradicional, cerâmica, artigos diversos em couro de dromedário, uma multiplicidade de artefactos usados e algumas interessantes antiguidades. No estilo de Ghadamés, Ghat também tem uma cidade antiga, construída de adobe e com arquitectura de fortificação. Fundada no séc I aC, é um labirinto de vielas cujo urbanismo actual data do séc XII. A sua mesquita foi construída no séc X e tem uma arquitectura africana característica do Sudão. No centro eleva-se um terraço de onde se vigiavam os acessos à cidade, também o local onde se reuniam os notáveis e de onde se dirigiam ao povo.
Dominando-a do alto de um promontório situa-se o estreito e pequeno forte otomano, depois italiano. Daqui avistamos o verdejante palmeiral com as suas hortas e os bairros modernos. Dentro da cidade encontram-se algumas lojas de artigos tradicionais e de velharias.
Maciço de Akakus

É conhecido pelos seus enormes promontórios negros que se elevam acima da areia do deserto e pelas inúmeras gravuras e pinturas rupestres. Passámos um dia circulando nos grandes espaços entre rochedos, subindo e descendo dunas, em busca desta arte rupestre protegida pela Unesco e classificada Património Mundial.
As pinturas situam-se em cavernas e concavidades da rocha que os raios solares nunca atingem. Vi pinturas ainda coloridas, nomeadamente de encarnado, com figuras humanas, uma das quais chama-se “O Casamento” por estarem um homem e uma mulher juntos com as mãos tocando-se.
É interessante reparar nos detalhes das cenas de há cerca de 12000 anos quando esta região era arborizada e fértil. Vi gravados na rocha v
acas, girafas, elefantes, dromedários, leopardos, cabras bem como cenas de caça e de guerra, e caracteres tuaregues. Leptis Magna
Situa-se a 120 km de Tripoli e foi fundada pelos fenícios no séc VII aC. Foi conquistada pelos romanos no séc II aC e viria a tornar-se na maior e mais rica cidade romana em África, o seu porto um dos mais movimentados do Mediterrâneo sul.
Aqui se embarcavam animais exóticos, produtos agrícolas (trigo, azeite), peixe seco e a multiplicidade de mercadorias que chegavam nas caravanas que atravessavam o deserto, na rota que passava em Ghat e em Ghadames.
Esses tempos de esplendor estão reflectidos na monumentalidade da cidade onde se notam alguns excessos. Achei incrível a quantidade incalculável de arte que esta cidade encerra! Claro que só pude apreciar escultura e cantaria, mas a qualidade e a quantidade das obras são excepcionais. Aliás, falta conhecer o que ainda está soterrado. A autoria da maioria dos restauros é italiana e pareceram-me adequados, aliás esta arte é originária do seu país.
Admirei o grande arco de Septimus Severus, quadrangular com quatro passagens, revestido a mármore e muito esculpido, que marca o início da longa avenida ladeada de colunas que conduz ao porto.
Nesse caminho passamos pelos imponentes banhos de Adriano construídos em mármore. São dotados de grandes salões e piscinas, e no exterior abre-se um campo para desporto.
Muito próximo situa-se a basílica, um edifício de paredes maciças e intactas com uma envergadura imponente de 90m de comprido, repleto de obras de cantaria em calcário e em mármore que jazem no solo. Apreciei os mármores rendilhados com figuras humanas, vegetais e animais, um trabalho delicado que consegue chegar até nós praticamente intacto!
Do lado sul, situa-se o forum de Severo, um largo terreiro lajeado a mármore e cercado de colunas e de inúmeras estátuas. Noutra avenida que parte do arco, a avenida triunfal, passamos pelos arcos de Trajano e de Tibério para chegarmos ao mercado e ao chalcidicum que contém um templo e, mais adiante deparamos com o portão bizantino.
No mercado conservam-se as bancas de peixe com as medidas de comprimento ainda gravadas na pedra! Os poços e os chafarizes têm os bordos muito sulcados pelas cordas e pelos fundos das ânforas.
Vi as casas de banho públicas com longas lajes dotadas de orifícios em linha, sem separações ou resguardos, obrigando as pessoas a sentaram-se lado a lado, dando a ideia de que as discussões do forum se prolongavam neste recinto.
Muito perto eleva-se o
teatro com as suas bancadas de calcário para 5000 pessoas e a maioria das colunas ainda erectas. Passeando à beira mar deparamos com obras de cantaria e colunas dentro de água, cobertas de limos!
No regresso a Tripoli ainda houve tempo para deambular no souk, o centro comercial tradicional semi-coberto, e para nos sentarmos na esplanada de um café egípcio e puxarmos umas fumaças de um narguilé.
Nota sobre Segurança
Nos tempos que correm não soa muito bem
passar férias na Líbia! Por que decidi então apostar neste destino?Achei que o País gozaria de uma boa dose de exclusividade por ainda não ser muito procurado. Desde meados dos anos 80 que o País viveu isolado da comunidade internacional e vigorou um embargo imposto pela ONU até 2006. Neste momento a Líbia está com um desejo enorme de abrir-se ao exterior em todos os campos, incluindo o turismo. Viajar na Líbia é uma experiência idêntica à de viajar-se em Marrocos ou no Egipto, mas com muito menos viajantes!
O País é mais conservador do que estes, vêem-se menos mulheres vestidas à ocidental e quase todas com os cabelos cobertos, mas também vi muitas mulheres conduzindo, até motas. O álcool é proibido e possuí-lo é crime. Não há bares em Tripoli e a vida nocturna, após o fecho dos cafés, resume-se a circular a pé ou de carro em algumas avenidas exibindo as “máquinas” e os seus ocupantes. Em cada viatura são normalmente do mesmo sexo, excepto quando são casais (na mesma noite passei por doi
s Porsche Cayenne!). Abundam os cartazes de grandes dimensões com o busto de Kaddhafi e o anúncio dos seus 38 anos de chefia do País. Não discuti política com os líbios pois achei o tema sensível, mas fiz perguntas e tentei perceber o que é o regime de escolha popular inventado por Kaddhafi.
No aeroporto de Sebha havia inscrições propagandísticas, uma delas dizia “o regime popular de escolha directa aborta a democracia”.
Achei a Líbia tão ou mais segura do que Marrocos e desconfio que a polícia exerce maior controlo sobre a população. No decurso dos cerca de 2000 km que percorri no País passámos dezenas de postos de controlo onde o nosso motorista tinha de entregar um documento. É uma autorização para empreender a viagem naquele itinerário da qual o guia tirava fotocópias regularmente… Contudo nunca vi um polícia verificar a matrícula das nossas viaturas!
Senti que o regime desconfia dos estrangeiros tomando-os por potenciais espiões. Os hotéis só me devolveram o passaporte quando os abandonei.
Uma medida inofensiva que a polícia exige foi a de ter de entregar o passaporte a um funcionário da nossa agência local para que o apresentasse no posto de polícia mais próximo no oitavo dia de viagem para verificar o visto.
O responsável desta agência informou-me que eles são responsáveis pela nossa “segurança” em todos os momentos em que permanecemos na Líbia. Por isso, que não poderia permitir o “dia livre em Tripoli” que é hábito nos programas Rotas do Vento.
Achei Tripoli uma cidade muito pacata e, comparada com Marrakech ou o Cairo, uma aldeia!
28.05.07
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