segunda-feira, janeiro 10, 2000

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Rotas do Vento - Antártida, Argentina - Passagem Drake e Península Antártida
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Rotas do Vento - Islândia - Islândia de Norte a Sul

        
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Rotas do Vento - Botswana, África do Sul, Zâmbia - Baobabs do Delta de Okavango (dormida em lodge)
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Rotas do Vento - Espanha
Rotas do Vento - Espanha

        
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Rotas do Vento - França
Rotas do Vento - França

        
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Rotas do Vento - Itália
Rotas do Vento - Itália

        
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Rotas do Vento - Suiça
Rotas do Vento - Suiça

        
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Rotas do Vento - Irlanda
Rotas do Vento - Irlanda

        
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Rotas do Vento - Islândia
Rotas do Vento - Islândia

        
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Rotas do Vento - Egipto
Rotas do Vento - Egipto

        
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Rotas do Vento - Síria
Rotas do Vento - Síria

        
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Rotas do Vento - Jordânia
Rotas do Vento - Jordânia

        
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Rotas do Vento - Turquia
Rotas do Vento - Turquia

        
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Rotas do Vento - Marrocos
Rotas do Vento - Marrocos

        
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Rotas do Vento - Quénia
Rotas do Vento - Quénia

        
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Rotas do Vento - Tanzânia
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Rotas do Vento - Líbia
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Rotas do Vento - Botswana
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Rotas do Vento - Canadá
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Rotas do Vento - EUA
Rotas do Vento - EUA

        
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Rotas do Vento - Peru
Rotas do Vento - Peru

        
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Rotas do Vento - Argentina
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Rotas do Vento - Chile
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Rotas do Vento - Costa Rica
Rotas do Vento - Costa Rica

        
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Rotas do Vento - Brasil
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Rotas do Vento - Vietnam
Rotas do Vento - Vietnam

        
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Rotas do Vento - Nepal
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Rotas do Vento - Tibet
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Rotas do Vento - India
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Rotas do Vento - Butão
Rotas do Vento - Butão

        
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Rotas do Vento - China
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Rotas do Vento - Cambodja
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Rotas do Vento - Antártida
Rotas do Vento - Antártida

        
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Rotas do Vento - Austrália
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Rotas do Vento - África do Sul
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Rotas do Vento - Gronelândia
Rotas do Vento - Gronelândia

        
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Rotas do Vento - Namíbia
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Rotas do Vento - Malawi
Rotas do Vento - Malawi

        
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Rotas do Vento - Zâmbia
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Rotas do Vento - Moçambique
Rotas do Vento - Moçambique

        
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Rotas do Vento - Zimbabwe
Rotas do Vento - Zimbabwe

        
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Rotas do Vento - Portugal
Rotas do Vento - Portugal











sábado, dezembro 05, 1998

O Rio do Perfume, Vietnam


O Rio do Perfume situa-se no centro do País e atravessa Hué, a última cidade imperial do Vietnam. O seu nome deve-se provavelmente ao aroma das resinas e das ramagens de pinheiros e de coníferas que seria arrastado pela brisa ao longo do vale.
Na margem norte, a cidadela estende-se por trezentos hectares onde se contavam mais de duzentos edifícios entre palácios, templos, pavilhões de lazer e de cultura e edifícios administrativos e militares.
No centro deste recinto situavam-se os domínios privados do imperador: a Cidade Proibida Púrpura. O significado dos nomes das suas edificações são muito atraentes e cito alguns: o Palácio da Suprema Harmonia, o Terraço das Cinco Fénix, o Portão do Meio Dia, a Esplanada dos Rasgados Cumprimentos, o Pavilhão da Eterna Claridade, etc. Os dragões, os leões e as fénix abundam nos elementos decorativos.
Infelizmente, muito foi destruído pelas guerras e pela negligência do regime comunista durante esta metade do séc XX mas, após a sua classificação como Património Mundial pela Unesco em 1993, os trabalhos de reconstrução e de restauro parecem-me realizar-se com empenho e competência.
A cidade, muito encantadora, é atravessada por vários canais e braços de rio. O movimento de embarcações de transporte e de pesca é considerável. Muitas famílias ainda habitam nos seus barcos acostados uns aos outros no refúgio tranquilo dos canais.
Nas colinas de densa e viçosa vegetação a sul de Hué estão dispersos os mausoléus dos vários imperadores da dinastia Nguyen (1802-1945). É curioso notar que cada imperador planeou o seu com antecedência!
São complexos arquitectónicos, artísticos e paisagísticos muito interessantes pois procuram conjugar a harmonia da Natureza com o desenho e a disposição das edificações de acordo com critérios geomânticos ancestrais. Situam-se em parques verdejantes atravessados por canais e possuem lagos com lótus. Todos têm terreiros de cerimónias onde desfilam elefantes, cavalos, soldados e mandarins civis e militares esculpidos em pedra. Junto ao túmulo eleva-se um pavilhão contendo uma grande estela em mármore, apoiada sobre uma tartaruga, onde está gravada a biografia do imperador. Em redor dispõem-se templos, pequenos palácios, pavilhões de recreio e habitações de concubinas, criados e soldados.
O imperador Tu Duc construiu um complexo tão agradável que, quando foi terminado, resolveu aí habitar acompanhado das suas cento e quatro esposas e muitas concubinas, conduzindo daqui os negócios do País.
Gostei de visitar todos estes locais de bicicleta, aliás o modo de transporte do povo. É uma forma interessante de contactar com os nativos pois permite parar a todo o momento e fazer todos os desvios de percurso que entendemos.
Há outros mausoléus mais simples, carecendo de conservação e por isso raramente visitados, que não têm guardas. Estão muito decadentes e normalmente desertos.
Visitei o mausoléu de Tieu Thri e agradou-me ser o único visitante. Não encontrei vivalma no recinto excepto alguns nativos que passaram de bicicleta ou crianças que jogaram à bola no terreiro e se banharam no lago. O ambiente aqui é de grande tranquilidade e convida à meditação. Ficamos absorvidos pelo encanto de um imaginário de fausto e de requinte que ali ocorreram há muito tempo e cujos vestígios estão reflectidos na arquitectura e na arte.
Não se vêem muitos viajantes ocidentais no Vietnam e isso confere um sentimento de exclusividade muito especial à viagem. Os nativos olham-nos com surpresa e o seu interesse por nós ainda é só didáctico.
Se Hué é um esplêndido exemplo da arte e da cultura aristocrática vietnamita, o arquipélago de Halong é uma surpreendente obra da Natureza. São três mil ilhéus desertos, rochosos, cobertos de vegetação verdejante que formam um autêntico labirinto no meio das águas verde esmeralda do golfo de Tonkin. Atravessei de barco uma parte do arquipélago e fiquei assombrado com a extrema beleza da paisagem.
Há elegantes promontórios que se elevam dezenas de metros acima da superfície das águas, alguns com uma base muito estreita devido à constante erosão provocada pelo mar. O tempo e os elementos criaram múltiplas formas interessantes nos rochedos. Há inúmeras cavernas escavadas pelo mar que possuem várias entradas e onde vemos, na penumbra do seu interior, esplêndidas águas verde claras.
À medida que vamos navegando nestes canais vamos descobrindo uma enorme multiplicidade de pequenas enseadas com minúsculas praias desertas rodeadas de falésias a pique ou de vegetação verdejante que desliza suavemente sobre o areal. O sentimento de navegar entre estes rochedos é extasiante pois em cada minuto descobrimos novas paisagens de sonho. Fazem-nos lembrar velhas histórias de piratas, de esconderijos, de cavernas e de locais escondidos pela vegetação onde se guardam tesouros perdidos.
O arquipélago de Halong possui um ambiente verdadeiramente sublime para quem gosta de mar e de actividades aquáticas.
Cruzamos vários pequenos botes de pesca artesanal, normalmente tripulados por um casal onde se encontram também um ou dois filhos pequenos. Há também extensos viveiros de marisco junto aos quais os pescadores habitam em casas sobre palafitas.
A ilha principal, Cat Ba, é a maior e a única que possui uma povoação que é habitada, maioritariamente por pescadores. A sua baía é refúgio para centenas de barcos de pesca que a tornam bastante animada e pitoresca durante o dia, e muito cintilante à noite.
A maioria da superfície da ilha está protegida pelo Parque Nacional de Cat Ba. Aqui habita uma espécie muito rara de macaco asiático no meio da diversidade de cerca de setecentas espécies vegetais, das quais mais de cem têm aplicação medicinal. Fiz um passeio a pé até ao cimo do monte mais alto donde pude apreciar um bonito panorama em redor por entre a leve névoa matinal. Admirei uma sucessão de ilhéus rochosos por entre os outros montes e constatei que praticamente toda a ilha está coberta por uma densa floresta semi-tropical.
Depois visitei as montanhas do noroeste do País, junto à fronteira com o Laos, para percorrer um itinerário a pé através das aldeias. A região é agradavelmente verdejante com florestas onde sobressaem enormes bambus e árvores muito viçosas de longas raízes superficiais.
Os aldeãos cultivam arroz, mandioca e chá em socalcos nos flancos das montanhas, utilizando engenhosos métodos de irrigação onde destaco as noras feitas de bambu. Também criam cavalos, búfalos, vacas e enormes porcos.
As suas casas são construídas de madeira sobre estacas e têm só um piso, sendo cobertas de colmo. É nelas que dormimos durante o percurso pedestre e onde teremos a interessante experiência de provar a gastronomia tradicional campesina.
Regressei com muito boas memórias do País, especialmente da simpatia e da hospitalidade deste povo cordial e sorridente, cada vez mais desejoso de comunicar com o exterior.

Gonçalo Velez
Nov 98

sexta-feira, dezembro 05, 1997

Sobrevivência na Selva, Malásia

Atravessámos bem cedo a aldeia de Uluche cruzando alguns agricultores que se dirigiam para os seus campos. Tinha-nos sido entregue um conjunto de rações que deveríamos gerir da melhor forma ao longo dos próximos dias e que seriam complementadas com os alimentos que iríamos colher. Além daquelas recebemos também um tacho individual, fósforos e lixa, uma vela, um troço de combustível sólido e uma parang, a formidável catana malaia. O grupo era composto por dois guias e cinco aprendizes malaios, dos quais uma senhora, mais o português. Pouco após iniciarmos a subida da colina parámos numa verdejante mata de bambus. Aqui tivemos a nossa primeira lição e a estreia da parang: a preparação do cantil a partir de um tronco grosso de bambu. Passando o ribeiro a subida torna-se mais íngreme e vamos abandonando a floresta habitada. Os guias aproveitam para fazer algumas paragens durante as quais nos mostram as espécies de plantas que são comestíveis: folhas tenras e caules que se descascam.. Pensei que se encontrariam imensos frutos gostosos mas o Mohamed, o guia-chefe, diz que mesmo que os houvesse os animais os colheriam primeiro. Também conhecemos folhas que mascadas saram feridas, e um tipo de vinha cujo tronco é poroso e do qual escorre água quando cortado. Aprendemos a retirar longas fibras da casca de uma certa árvore que se usam como cordas.
Halim, o segundo guia, é natural de Uluche e a sua profissão era caçador. O Governo aboliu recentemente a caça por motivos de preservação das espécies e está a subsidiá-lo. Agora ele dedica-se a colaborar nestes cursos de sobrevivência.
A meio do dia parámos à beira de um ribeiro pois iríamos cozinhar o almoço, e também o jantar por que o local de acampamento nessa noite não terá água. Surpresa ! Fazer fogo na selva não é como em nossa casa onde abundam os papéis de jornal, o combustível sólido e a lenha seca. Acabei a cozinhar a massa na fogueira do meu vizinho Cunnin, enquanto este comia. À falta de talheres comíamos com pauzinhos ao estilo chinês feitos por nós. Depois ainda cozemos arroz que aprendemos a embalar em grandes folhas para levarmos para o jantar.
Chegámos a meio da tarde ao campo Bravo 1, na floresta secundária. Uma lona no chão e outra suspensa das árvores formam um abrigo que se destina a proteger-nos da chuva. Halim mostra-nos como se constrói um grande abrigo com ramos atados com as fibras de casca de árvore. Todos cortam folhas da árvore Bertham para o cobrir. Uma camada espessa de folhas, suficiente para não se ver através dela, contêm uma chuva torrencial. Também aprendemos a colher as resinas da árvore maranti que são eficazes a atear o fogo.
Após o anoitecer, jantamos todos em torno de uma grande fogueira envolvidos pelos incríveis sons da selva.
É à noite que os medos dos citadinos emergem. Mohamed diz-me que as pessoas que penetram pela primeira vez na selva tropical pensam sempre no pior que lhes pode acontecer. Trazem visões de enormes cobras e escorpiões, de temíveis tigres e ursos prontos a atacar.
O seu lema é the jungle is neutral (a selva é neutra) pois considera que nenhum animal ataca se não se sentir ameaçado ou às suas crias. Por isso é importante compreender o meio e ter um mínimo de sensibilidade e de atenção para se conseguir aí viver sem grandes sobressaltos.
De manhã, tivemos várias sessões práticas sendo a primeira a extracção da polpa comestível da árvore Bertham. É uma tarefa laboriosa por que implica descascar com a parang o tronco junto da raíz, muitas vezes com fracos resultados. O sabor desta polpa é muito indiferente mas o Al descobriu que polvilhando-a com sal o melhorava muito.
A seguir aprendemos como se sinaliza a nossa passagem na selva. Talvez esta seja a matéria mais importante do curso por que não só permite orientar-nos para regressarmos pelo mesmo caminho, como também fornece uma pista a qualquer equipa de salvamento. Também nos ensinaram a bater na raiz de uma grande árvore para fazermos propagar o som a quilómetros de distância. Halim afastou-se para sinalizar um percurso através da selva que pouco após iríamos seguir. Foi um exercício muito divertido e interessante. Demonstrou que os nossos olhos necessitavam ainda de bastante treino para detectar os vestígios que ele deixara.
À tarde iniciámos a descida para a selva primária, mais conhecida pelo termo rainforest. À medida que descíamos a vegetação tornava-se cada vez mais densa e verdejante. A variedade de plantas é assombrosa. O arvoredo compõe-se de vários níveis de copas, havendo árvores que ultrapassam os sessenta metros de altura e lançam longas e espectaculares raízes à superfície da terra. O ambiente é de penumbra por que a luz do sol não penetra através das folhagens (por isso tive imensa dificuldade em fotografar sem flash!). É encantador observar um ambiente tão viçoso onde as plantas crescem de todo o lado, e se entrelaçam umas nas outras reduzindo o campo de visão a uns seis metros de distância.
Chegámos ao campo Kilo 1 a meio da tarde. O local é muito agradável por que se situa numa clareira junto de um ribeiro de águas transparentes. Depois de montado o acampamento fomos à procura de bambus por que iríamos aprender a cozinhar nele e a fabricar outros utensílios, como pratos e talheres de servir. O bambu é muito plástico e tem enormes resistência e flexibilidade. As suas aplicações neste contexto são quase infinitas e incluem mobiliário de campo, armadilhas e alarmes, plataformas, até grandes cabanas de utilização permanente.
O Mohamed contou-me que avisa as pessoas para terem o cuidado de não se afastarem demasiado do acampamento por que podem perder-se. Por isso os guias têm sono leve e procuram estar sempre atentos ao que se passa em redor. Ele conta que uma noite estava vigilante e reparou que uma cliente americana se afastava do abrigo para se aliviar. Passado um pouco nota que a luz da sua lanterna se vai afastando. Levanta-se e segue-a, surpreendido por ela não perceber que o acampamento estava para trás (embora às escuras). Ao aproximar-se percebe que ela já se considerava perdida e ouve-a repetir com a voz trémula de angústia: "Oh my God, oh my God…!!"
Iniciámos o dia seguinte com um esplêndido banho numa das piscinas do rio onde jorrava uma cascata. Os raios do sol envolviam-nos e descontraímos sentados na areia com os peixes a debicarem-nos os pés. Nessa manhã fomos caminhar em grupo na selva. Cada um de nós conduziria o grupo à vez, sendo que o segundo auxiliava o primeiro a ultrapassar obstáculos e o terceiro marcava o caminho. Os guias deixaram-nos orientar como quisemos e seguimos um percurso que nos pareceu circular. Vimos marcas de javalis e estivemos a observar os gibões a rodopiar nos ramos superiores das grandes árvores. Foi um exercício muito interessante por que quando se decidiu regressar ao acampamento as opiniões divergiram muito. Havia pessoas muito seguras relativamente à direcção a tomar e que estavam totalmente equivocadas.
Mohamed instruíu-nos dos riscos que poderíamos encontrar, nomeadamente as víboras que gostam de enroscar-se sob a copa das árvores pallas. Por isso caminhávamos com a parang numa mão e um bastão na outra para afastar as ramagens. Ele diz-me que há só dois animais que teme seriamente: o vespão e a cobra real. Felizmente que nos seus mais de quinze anos na selva nunca teve de enfrentar algum deles. Eu já tinha lido que, quando surpreendida, uma cobra venenosa que ataca injecta normalmente muito pouco veneno, às vezes mesmo nenhum. Apesar de a selva proteger do sol, o Mohamed andava sempre de chapéu. "É para o dia em que me aparecer uma cobra real pela frente. Se ela se atirar a mim arremesso-lhe o chapéu à cabeça e fujo a sete pés…"
Pergunto-lhe se algum de nós for mordido, o que fazem? "Temos os nossos métodos que aprendemos com os nativos. O Halim e eu já fomos mordidos pela cobra negra e pela víbora da Sumatra. O antídoto é de venda restrita e não é prático de transportar por que tem de estar a uma temperatura baixa. Lembra-te que a sobrevivência significa fazer o que tens de fazer, não importa onde estiveres, com o que tiveres à mão. Não te preocupes que os nossos métodos não falham. Já assisti muitos nativos e companheiros com sucesso", informa-me com naturalidade.
Pela forma como me falava, ele era não só um apaixonado pela selva como também um estudioso empírico. Falou-me de experimentar quase de tudo no seu corpo para conhecer as consequências, e de sofrer febres terríveis. Ele foi comando especialista da selva durante muitos anos e viveu largos períodos neste meio. Durante o curso ele experimentou o efeito de umas folhas na pele do braço e concluíu que eram venenosas por que a pele tornou-se vermelha e com uma ligeira erupção, além de que lhe fazia comichão. Esse efeito passou em poucos dias.
Para reconhecer se uma planta é comestível ele ensinou-nos a esfregá-la a) no braço e esperar cinco minutos para ver o efeito, depois b) na pele fina e clara sob o braço e esperar cinco minutos, c) o mesmo método nos lábios, d) depois mastigar e deitar for a, e só no final deste processo se engole.
Senti-me algo desiludido no que respeita à fauna. Imaginei que iria observar aves multi-colores, mamíferos ágeis e répteis fugidios numa selva muito viva e movimentada. O que encontrei afinal foi uma Natureza serena mas muito sonora. Ouvia-se mas não se via, por tudo parecia acontecer nas copas superiores. Quanto aos seres terrestres, são sobretudo activos à noite e de dia afastam-se ao mínimo ruído suspeito. Aliás, a sinfonia era muito mais espectacular à noite, com uma variedade de sons absolutamente inimagináveis (levei um micro-gravador mas infelizmente a fita enrolou-se!).
O grande problema nas selvas malaias são as pessoas que decidem ir passear e que se perdem o que, sem preparação, é muito fácil. É sempre difícil organizar um resgate por que as áreas são vastas e só os muito experientes, com sorte à mistura, conseguem detectar os vestígios dessas pessoas. Acresce que as vítimas enlouquecem passados poucos dias. O pânico invade-as por acharem que estão à mercê dos animais, por que o seu raio de visão é muito curto e não conseguem ter referências geográficas, e por que normalmente já andaram interminavelmente em círculos. Quando as equipas de resgate os encontram, eles fogem em pânico e oferecem enorme resistência física.
Os cerca de sete dias que passei na selva ensinaram-me imensas coisas, entre as quais o facto muito real de que comemos em demasia no nosso quotidiano. Conseguimos viver comendo parcamente e sem sentirmos qualquer desconforto. O sentimento de termos poucos alimentos fez-nos encarar os que possuíamos de forma diferente. Vi uma série de atitudes da parte dos meus companheiros e minhas que pareceriam muito bizarras em Lisboa. Apanhei, por exemplo, o Ben que após esvaziar uma lata de sardinhas e de lhe ter bebido o suco, molhava a ponta do indicador no que restava e o chupava! Às vezes dava por mim a tentar decidir se comia agora ou mais tarde uma barra de chocolate recheado com coco. Também nunca me tinha visto a comer a totalidade de uma maçã (exceptuando os caroços)! Para além dos aspectos aliciantes ligados à observação da Natureza, este curso deu-me uma visão muito interessante da nossa existência num Mundo dominado pela sociedade de consumo ou sociedade da abundância. Foi muito salutar termos experimentado uma atitude perante a vida radicalmente diferente do que estávamos habituados. No fundo, viajar implica isto mesmo: distanciar-nos dos nossos hábitos para vermos melhor ao longe, e termos a humildade de aceitar experimentar outros modos de vida que possam ensinar-nos algo de diferente. É isto que ambiciono para uma experiência de viagem.

Gonçalo Velez

PS: Não quero deixar de mencionar Malaca que conserva importantes vestígios da nossa presença nomeadamente a porta de Santiago da fortaleza A Famosa e o bairro dos cerca de quinhentos descendentes dos nossos colonos que ainda falam português.

PS2: Esta viagem destinava-se a criar um programa novo para Rotas do Vento. Esse programa revelou-se no maior fiasco da agência pois durante o ano em que foi anunciado tivemos uma única inscrição! Percebi então que os portugueses não estavam preparados para actividades radicais, embora a maioria acha que as pratica só por que compra uns equipamentos com imensos bolsos, faz uns rappéis e uns slides, tropeça e raspa o joelho, e regressa a casa bronzeado com a marca dos óculos e algo despenteado... Cheguei à conclusão que o contacto intensivo com a Natureza e a possibilidade, algo remota, de encontro com fauna (bichos!) desencorajou os potenciais clientes. Provavelmente o comer-se menos bem durante o curso de sobrevivência também contribuíu para o insucesso. (06.06.06)